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#MemorialEntrevista A luta de mulheres negras no continente americano

Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é celebrado no dia 25 de julho e simboliza a resistência e luta de pessoas subalternizadas pela história

A imagem do gravurista suíço Félix Edouard Vallotton (1865 -1925), comumente associada a Tereza de Benguela ou “Rainha Tereza” como ficou conhecida no século XVIII

No último domingo (25) rememoramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Estabelecida em 1992, no encontro de Mulheres afro latino-americanas e afro-caribenhas em Santo Domingo, na República Dominicana, a data simboliza um marco significativo para essas mulheres que há muito tempo lutavam e ainda lutam por seu lugar e reconhecimento perante ao mundo.

O Memorial da Resistência de São Paulo entrevistou Catalina Gonzalez Zambrano – Doutora em Sociologia pela USP, cuja tese, intitulada “Mulheres negras em movimento: ativismo transnacional na América Latina (1980-1995)”, busca relatar como as diferentes narrativas do ativismo negro latino-americano criaram uma nova perspectiva para a mobilização do Feminismo Negro Latino-Americano, que culminou num “movimento que transcende fronteiras nacionais”. (ZAMBRANO,2017).

Passando sobre a história do dia 25, da importância de figuras como Tereza de Benguela (x – 1770), líder do Quilombo de Quariterê, e a realidade da mulher negra latino-americana e caribenha durante a pandemia, a conversa sublinhou a necessidade de relevância sobre a pauta e a importância de “assumir como sociedade o desafio do reconhecimento individual e coletivo às mulheres negras como sujeitos de direito que historicamente tem sido negado”, diz Catalina.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Memorial da Resistência- A data ainda é muito pouco pautada por veículos da mídia hegemônica, o que faz com que poucas pessoas conheçam de fato este dia. Gostaria que você falasse um pouco sobre a história e importância por trás do 25 de julho e qual a sua opinião sobre a ausência da pauta na mídia em geral.

Catalina – O dia 25 de julho como data comemorativa da mulher negra nas Américas foi estabelecido em 1992 no I Encontro de Mulheres afro latino-americanas e afro-caribenhas em Santo Domingo- República Dominicana. O evento foi muito significativo porque nesse ano se comemorava o quinto centenário da descoberta da América. Portanto, foi um momento em que muitos movimentos sociais e culturais da região levantaram a voz contra aquela celebração e começou se desenvolver com mais força a discussão sobre o processo de colonização que causou o genocídio dos povos indígenas e negros e que foi desenvolvendo o tema da colonialidade que ainda persiste em nossas sociedades americanas. Então, nesse contexto, se articularam muitos parceiros das organizações de mulheres negras na região que se vincularam à Rede de Mulheres Afro latino-americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora que se constituiu nesse evento dando visibilidade às denúncias de racismo, classismo e sexismo das mulheres negras da região. E também aí começa a se vislumbrar na América Latina o tema da interseccionalidade entre raça, gênero, classe e outras categorias de opressão que recaem diretamente sobre as mulheres negras.

Essa articulação das mulheres negras no evento de Santo Domingo já tinha começado pelo menos uma década antes, com a realização dos Encontros Feministas Latino-americanos. Nesses encontros a pauta da raça, da mulher negra da região foi colocada com muita luta pelas ativistas negras que participavam ali.

Me parece que comemorar o dia da mulher negra ou o dia da mulher afro latino-americana e afro-caribenha tem um grande impacto na sociedade que dá visibilidade, e abre caminhos para pensarmos outras formas de aproximação à luta das mulheres negras. Com isso, as mulheres não negras da região devem também sentir a responsabilidade nessa luta, seja através da aproximação ao feminismo negro, ao feminismo decolonial ou a um feminismo mais autônomo que implica uma revisão das teorias feministas elaboradas por mulheres brancas e hegemônicas, ou que também coloca o questionamento de que o racismo é algo que apenas o movimento negro deve enfrentar, ou que a violência contra as mulheres é um problema do feminismo.

A meu ver, as pautas que vêm se colocando desde a última década do século XX e os movimentos de mulheres negras estão trabalhando por uma abertura a novas diretrizes e projetos políticos baseados nas experiências e trajetórias de vida das mulheres negras, desde os vários fazeres e conhecimentos culturais, artísticos, políticos, sociais e ancestrais.

MRSP – No Brasil, a data também é uma homenagem à Tereza de Benguela. Qual é a importância de preservar a história e memória de mulheres como Tereza?

C – Me parece que a importância de preservar a história e memória de mulheres como Tereza de Benguela ou de tantas outras mulheres negras como Luiza Mahin, ou Dandara, para falar das protagonistas na história da escravidão no Brasil, ou de tantas outras mulheres negras combativas na época da escravidão, é importante porque se abre o debate sobre as múltiplas desigualdades historicamente vividas pelas mulheres afrodescendentes da América Latina y do Caribe e que fazem parte de um sistema de discriminação estrutural que tem seu legado no passado colonial escravista.

Com o reconhecimento histórico, social, político e acadêmico das mulheres negras da época contemporânea, como Lelia González, Tereza Santos, Sueli Carneiro, se coloca sobre a mesa o panorama regional sobre os efeitos da intersecção das distintas formas de discriminação que evidencia a maioria das mulheres afrodescendentes e isso exige assumir como sociedade o desafio do reconhecimento individual e coletivo às mulheres negras como sujeitos de direito que historicamente tem sido negado.

MRSP – Como você descreveria a importância do recorte geográfico latino-americano e caribenho?

C – É importante porque reconhece a população de mulheres negras no continente. Ou seja, abre os olhos para a sociedade latino-americana como um todo de que a população negra está em constante luta em todos os países da região. Abre o entendimento da existência de grupos como os garifunas na América Central, das comunidades negras na Colômbia, dos grupos negros em Uruguai, Equador etc. E o mais importante que isso traz é a possibilidade de articulação entre os povos.

O povo garifuna foi formado pela miscigenação de Indígenas Caraíbas e Aruaques com escravizados africanos.

MRSP – Em relação a pandemia, como você avalia a postura do Estado diante da asseguridade de mulheres negras, você diria que a crise sanitária implicou em um retrocesso de direitos?

C – É um fato que as pessoas negras são mais vulneráveis a algumas condições de saúde de maneira crônica como diabetes ou hipertensão. E já há estatísticas em Estados Unidos, e não acho que seja muito diferente no Brasil, que confirmam que as comunidades negras são uma das comunidades mais afetadas diante da pandemia por juntarem várias condições de vulnerabilidade, tanto socioeconômicas quanto de saúde.  E no contexto latino-americano de maneira geral, este continua sendo um contingente constantemente oprimido, racializado e marginalizado. Então acho que sim, que este grupo está sendo altamente afetado pela pandemia e é mais um acesso negado a direitos sociais.

MRSP – Há um ideal de superação em torno de mulheres negras que são vistas como mulheres de aço, capazes de superar quaisquer adversidades. Você acha que isso implica numa naturalização das opressões vividas por elas? Como combater isto?

C – Essa é a imagem que por muito tempo se naturalizou da mulher negra, mas eu acho que a resistência e a luta destas mulheres mudaram ou vem mudando essa ideia. E me parece que tudo está dentro de um mesmo processo de organização desde os anos 70, dos modelos de luta do feminismo negro norte-americano e das articulações posteriores das organizações de mulheres negras na América Latina. Mas isso é um processo e ainda muitas opressões são vividas por elas. E por isso mesmo acho muito valioso que no calendário oficial tenha um dia de comemoração e de reconhecimento à mulher negra.  

Catalina Gonzalez Zambrano é graduada em Antropologia – Universidad de los Andes (1999), Bogotá e DEA (Diplôme dEtudes Approfondies) em Antropologia Social e Etnologia – Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (2002). Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), atua principalmente nos campos da institucionalização dos movimentos sociais, especialmente de mulheres negras e os processos de transnacionalização.

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