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#MemorialEntrevista Luis Carlos Toro, do projeto A CASA Um lugar de memórias

Pesquisador conta sobre os processos que culminaram na experiência virtual disponível no site do Memorial da Resistência e a importância da preservação da memória

Oficinas realizadas junto à mulheres da Asociación Caminos de Esperanza Madres de La Candelaria. Cortesia Luis Carlos Toro.

No dia 08 de outubro, sexta-feira, o Memorial recebeu em seu site a experiência virtual A CASA Um lugar de memórias, criada pela Universidade de Antioquia em parceria com a Universidade Pontifícia Bolivariana. O projeto apresenta depoimentos e objetos de dezesseis mulheres da Asociación Caminos de Esperanza Madres de La Candelaria, uma organização sem fins lucrativos fundada por familiares das vítimas de desaparecimentos forçados, sequestros e homicídios no contexto do conflito armado na Colômbia

Um dos nomes à frente do projeto, o pesquisador Luis Carlos Toro Tamayo foi entrevistado pelo Memorial. A conversa delineou a necessidade de instituições museológicas buscarem novos caminhos para valorizar memórias acerca de momentos políticos autoritários e reforçarem, junto aos jovens, sua manutenção e conservação.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Memorial da Resistência – Ao invés de lugares institucionais e oficiais, como museus, memoriais e acervos, o projeto A CASA volta-se para relatos e objetos muito pessoais, os chamados arquivos pessoais. Que diferenças você vê entre esses dois tipos de arquivos e qual o valor dos arquivos pessoais para a história das ditaduras latino-americanas?

Luis Carlos –  Os arquivos que nós apresentamos neste projeto são artefatos presentes em nossas casas e fazem parte do cotidiano das pessoas. São objetos pessoais que todos nós temos e que guardamos de uma forma natural, diferente dos artigos institucionais que conhecemos, que são muito importantes pois permitem conhecer a verdade acerca de contextos que produziram traumas e violações dos direitos humanos. Os arquivos pessoais passam a complementar esses arquivos hegemônicos e institucionais que estão muito bem guardados, mas que sozinhos não garantem a salvaguarda de todas as informações que existem sobre pessoas desaparecidas. Os arquivos que estão nas casas das pessoas fazem parte de suas memórias, de suas recordações: são cartas de parentes desaparecidos, são suas roupas, são objetos que fizeram parte da vida dessa pessoa e é essa a diferença dos arquivos pessoais, que são mais próximos, pois carregam consigo uma carga mais pessoal e sensível.

MRSP – Poderia falar um pouco sobre o desenvolvimento das oficinas elaboradas junto às mulheres da Asociación Caminos de Esperanza Madres de La Candelaria e como se deu esse diálogo com elas?

LC – Quando começamos a trabalhar com a Asociación Caminos de Esperanza Madres de La Candelaria, uma instituição muito importante aqui na Colômbia, o que pensamos em fazer era algo voltado à organização de arquivos. Tivemos uma surpresa ao tentar organizá-los, pois descobrimos que boa parte das informações não estavam nas instituições, mas sim nas casas dessas mulheres. Eram objetos e documentos importantes e elas sabiam dessa importância: desde então, pensamos em trabalhar num projeto de sensibilização sobre esses objetos e documentos que elas guardavam em suas casas como recordação de seus familiares desaparecidos. Assim, pensamos em criar um trabalho e uma metodologia de trabalho que nos permitiria entender que tipo de informação elas guardavam em suas casas, afinal todo o tempo elas falavam dessas informações, porém não compartilhavam nas oficinas e encontros da Asociación. Tudo isso nos fez pensar numa maneira de trabalhar com esses arquivos pessoais, porque essas mulheres pouco sabiam do valor que esses objetos têm na busca efetiva de pessoas desaparecidas, apesar de saberem da importância deles, então desenvolvemos oficinas para ensinar o que é um arquivo pessoal, para conseguirmos chegar em algum lugar.

Teresita Gaviria, fundadora da Asociación Caminos de Esperanza Madres de La Candelaria, fala sobre o trabalho da organização, fundada por familiares das vítimas de desaparecimentos forçados, sequestros e homicídios no contexto do conflito armado na Colômbia.


MRSP – Você cita que o projeto se baseia em metodologias alternativas para a construção de memórias. Poderia falar mais sobre como pensaram e como foram desenvolvidas essas metodologias junto às mulheres?

LC – Nessas oficinas criamos mapas para que elas falassem de onde vieram e como chegaram à Asociación, as histórias que as vincularam à associação e como eram suas vidas. Logo pensamos em buscar fotografias de álbuns de familiares com imagens das pessoas desaparecidas, e então pensamos em produzir um valor documental sobre essas imagens, pois não eram quaisquer imagens, mas sim algo que poderiam documentar e nos permitir entender o contexto.

Nesse sentido trabalhamos com a distribuição de objetos como um lenço, que de início não tem nenhum vínculo com nada, porém esse lenço, simbolicamente, era um papel onde poderia se escrever uma história, ou se contar uma história. Distribuímos também pequenos frascos onde pedimos para que elas colocassem qualquer coisa que remetesse alguém muito querido desaparecido. Trabalhamos com porta-retratos pequenos e pedimos para que elas falassem em qual lugar da casa o colocariam, e o que representava para elas. Distribuímos tiras de papel para elas escrevessem algumas das suas histórias de vida e através dessas histórias mostrávamos que essas histórias e recordações não são lineares, que elas podem acontecer em diferentes momentos, diferentes épocas, sem uma ordem cronológica. Ao final dessas atividades, desenvolvemos uma caixa onde elas poderiam guardar seus objetos e artigos pessoais. Um mês depois, para nossa surpresa, elas elaboram caixas incríveis, cheias de objetos, documentos pessoais e arquivos pessoais, e perceberam que ali havia muito valor documental, já que cada uma das peças continha uma história. Por exemplo, as mães guardavam os fios de cabelos dos filhos pequenos e dentes, objetos que têm informações genéticas muito importantes e que não fazem parte de nenhum acervo institucional, mas que estão na casa de todos nós. Essas informações são vitais para encontrar pessoas desaparecidas. Logo, encontrar isso é importante para as autoridades para que saibam que essas pessoas existem, fazem parte de uma família e precisam ser encontradas.

Esse foi trabalho que fizemos com a Asociación Caminos de Esperanza Madres de La Candelaria, foram oficinas que duraram um bom tempo, com intenção de capacitá-las, que por fim, culminou em uma exposição museológica muito importante.

MRSP –  A Asociación Caminos de Esperanza Madres de La Candelaria foi a primeira instituição que vocês fizeram esse trabalho? Esse trabalho foi feito novamente com outras pessoas?

LC –  Sim, a primeira vez que trabalhamos com essa metodologia foi com elas, diria que a metodologia se criou com elas, porque estavam fazendo um processo de reconhecimento de arquivos pessoais que cativava a defesa dos direitos humanos. Pensamos em contatar muitas instituições ativistas, pois o que buscamos era sensibilizar as associações e instituições da Colômbia sobre o valor dos direitos humanos e sobre organizações que atuam em prol dos direitos humanos.

Para nossa surpresa, esses arquivos pessoais estavam num estado de abandono e descuido muito grave e isso foi o que nos motivou a criar formas de organizar essas informações. Porém, como eu disse, muitas dessas informações não estavam organizadas, porque muitas pessoas não sabiam da importância desses arquivos, então foi um processo de reconhecimento. Foi um processo muito lindo e essencial para fundamentar essa metodologia de trabalho. É muito bonito ver jovens, como da Universidade de Antioquia, por exemplo, buscando objetos que remetem a seus avós e seus pais em suas casas para escrever as histórias desses objetos e documentos, então é essa sensibilização que buscamos, sensibilizar os mais jovens sobre o valor de conservar e recordar, através de objetos presentes em nossas casas.

MRSP – O que o levou a pensar em um jogo virtual como ferramenta para a valorização desses arquivos pessoais? O que acha que ela pode propor de diferente para o público?

LC – Buscamos com o jogo alcançar pessoas jovens, pensamos em linguagens narrativas que estão presentes nas vidas dos jovens e uma delas, sem dúvida, é o jogo. Também por conta da pandemia, calhou que estávamos todos presentes em nossas casas e as mulheres da Asociación são mulheres muito ativas, que todos os dias saem para fazer algum tipo de denúncia. Por conta da pandemia essas ativações foram suspensas, logo essas mulheres estavam presas em casa e isso fez com que elas ficassem tristes, então esse exercício fez com que conversássemos com elas para pensarmos em construir algo viável online, e desta forma manter seu ativismo.

Neste jogo gravamos vozes de algumas mulheres que fizeram parte das oficinas, coletamos alguns relatos escritos de outras participantes e, com ajuda de um engenheiro e uma aluna de comunicação social, o criamos. Pensamos como seriam esses objetos pessoais dentro de uma casa onde todos pudessem se reconhecer nela, uma casa com banheiro, cozinha, sala, um quarto – uma casa comum para todos, e aí distribuir esses objetos em diferentes lugares para que as pessoas pudessem encontrá-los e, assim, refletir sobre objetos.

A tecnologia do jogo possibilita que possamos entrar e acessar essa casa de uma maneira muito fácil.  A virtualidade nos permite chegar às casas das pessoas. Não é o jogo mais fácil de jogar porque é um jogo de recordações, de histórias difíceis, são histórias duras, porém esse jogo permite te aproximar das recordações de outras pessoas e dessa maneira ter empatia com as pessoas que viveram esses fatos. Eu não vivi histórias tão dolorosas como as que estão no jogo, mas ele me fez recordar de parentes que não estão mais entre nós. Isso é muito sensível e faz com que possamos levar essas histórias para um público muito maior.

O que buscamos não é trazer histórias de dor e sofrimento, mas sim valorizar a recordação e reconhecer que cada objeto tem um valor para as pessoas. Assim como essas mulheres guardam esses objetos para buscar seus parentes desaparecidos, nós também temos arquivos pessoais que nos remetem ao passado, que nos remetem a pessoas que já se foram, como os nossos avós, e nos lembramos deles com muito carinho, pois o vínculo afetivo é uma marca material nesses objetos pessoais.

MRSP – Os arquivos pessoais oferecem às vítimas e familiares de violência e autoritarismo uma certa autonomia para constituírem seus próprios acervos. Qual você enxerga que é a missão de instituições de memória, como o Memorial da Resistência, na difusão e valorização desses materiais?

LC-  Nosso exercício é pensar na memória da Colômbia, que é um exercício recente, que nos faz entender os processos de construção da memória. Temos como  grande referência a América Latina, tudo que passou o Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, são materiais de estudo para a Colômbia, para compreendermos a forma com que os países da América do Sul superaram seus processos, mas também para descobrir que os arquivos pessoais são um elemento transversal que fazem parte da forma que se busca e se recorda desse passado  e nos faz pensar na importância de levar isso a países que também têm muito o que contar através de objetos. Então é muito bonito ver como essa metodologia de trabalho pode se replicar em diferentes lugares e como as pessoas podem entender a importância de conservar a memória, memórias que todos nós temos, todos fazemos parte dela, então para nós é muito belo que esse trabalho esteja chegando ao Brasil. Assim como na Colômbia construímos nossas recordações através desses objetos pessoais, queremos que o Brasil também possa construir suas recordações e assim estimular os jovens a entender o valor das memórias, do passado no contexto de ditadura, por exemplo, e da violência, como viveram países da América Latina.

MRSP – Que importância você vê na apresentação do projeto A CASA no Memorial da Resistência, uma instituição brasileira?

LC – É muito significativo o trabalho do Memorial da Resistência, uma instituição importante para o mundo e para o Brasil. Sabemos os trabalhos que estão fazendo para a construção da memória no país e por isso creio ser muito importante compartilhar com o Memorial as experiências de outros países na América Latina.

Luis Carlos Toro Tamayo Doutor em línguas e literaturas românicas  pela ́Université Paris Ouest Nanterre La Défense e Doutor em Estudos Latino-Americanos pela Universidade do Chile, Mestre em Lingüística e Historiador pela Universidade de Antioquia – Colômbia. Professor/Pesquisador Sênior da Escola Interamericana de Biblioteconomia da Universidade de Antioquia. Sua ênfase de pesquisa tem sido a análise da mídia, discursos visuais e estudos sobre a memória a partir de abordagens como História Cultural, Semiótica, Estudos Culturais Contemporâneos e Arquivamento.