
Entrevista com Elzira Vilela
Dados gerais
Testemunho completo
Título
Entrevista com Elzira Vilela
Código da entrevista
C209
Coleção
Memórias da ditadura civil-militar > Coleta Pública de Testemunhos sobre militância, resistência e repressão durante a ditadura civil-militar.
Data da entrevista
16/05/2024
Resumo da entrevista
A entrevistada inicia seu relato abordando a mudança do interior de Minas Gerais para Sorocaba (SP), em 1960, para cursar Medicina na PUC-SP. Relembra que, ao final do primeiro ano da faculdade, ingressou no movimento estudantil após participar do 1º Congresso Estadual da Juventude Universitária Católica (JUC). Na sequência, descreve a criação da Ação Popular (AP), em 1962, e sua adesão à organização naquele mesmo ano. Detalha também a atuação do movimento estudantil em sua faculdade, contextualizando-a com o cenário nacional da época, e aponta suas principais referências políticas do período, como Teilhard de Chardin, Fidel Castro e Paulo Freire.
Sobre o período pós-golpe de 1964, a entrevistada relata ter conciliado a residência médica com o trabalho na AP, momento em que acolhia militantes vindos de outros estados. Em 1968, mudou-se para a capital paulista, onde contatou companheiros da organização e retomou sua formação teórica, em uma fase de transição da AP para o marxismo-leninismo. Como parte dessa atuação, hospedou Manuel da Conceição, que a convidou para atuar como médica no Sindicato do Vale do Pindaré-Mirim, no Maranhão.
Após ser preparada politicamente por Paulo Wright, instalou-se no distrito rural de Santa Luzia (MA), utilizando o desenvolvimento de um estudo sobre ervas medicinais locais como cobertura. Lembra que levou consigo duas sacolas de armas e que o êxito em escapar de situações de risco a fez acreditar que jamais seria presa. No local, estabeleceu um consultório onde atendia tanto a população quanto companheiros de militância, conquistando o respeito da comunidade após socorrer uma vizinha em um parto complicado. Ao ser alertada sobre uma ameaça iminente de prisão, fugiu para São Luís (MA), onde entrou para a clandestinidade, e, posteriormente, regressou a São Paulo (SP).
A entrevistada conta sobre os debates teóricos no interior da AP que resultaram na política de "integração na produção", diretriz que a levou a mudar-se para Lagoa (PE). Contudo, devido a um acidente durante um treinamento militar, lesionou-se e precisou retornar a São Paulo. Nesse período, casou-se com Licurgo Nakasu, também militante da AP, e transferiu-se com ele para Maringá (PR). Diante do comprometimento da segurança do casal, retornaram a São Paulo após uma breve passagem por Curitiba (PR).
A entrevistada relata ter enfrentado um período severo em São Paulo, marcado pelas dificuldades da gravidez, pelo nascimento da filha e pela escassez de recursos. Recorda que recebeu auxílio de um irmão para buscar exílio em Buenos Aires. Porém, em 2 de setembro de 1973, ela e o marido foram presos na Estação da Luz ao iniciarem a viagem, sendo encaminhados ao DOI-Codi/SP. Na ocasião, foi separada de sua filha Carmen, de apenas um ano, o que intensificou o sofrimento durante o período de seu sequestro. Na mesma época, três de seus irmãos, Francisco, Maria Célia e Rosane, também foram detidos e levados ao mesmo centro de tortura. Conta que Carmen foi entregue pelos agentes a Rosane antes de sua liberação, informação que foi compartilhada com a depoente pelo próprio comandante Carlos Brilhante Ustra. Durante os 90 dias em que permaneceu no DOI-Codi, a militante sustentou a versão de que seu vínculo com a Ação Popular se limitava a um atendimento médico prestado a Luiz Hirata, assassinado pela repressão em 1971. Em decorrência do estado físico altamente debilitado, acabou transferida para o Hospital das Clínicas em um veículo cedido pelo jornal Folha de São Paulo, local onde prestou depoimento ao delegado do Deops/SP, Angelo Singillo.
A entrevistada destaca que seu sequestro antecedeu uma ostensiva onda repressiva voltada ao aniquilamento da AP em São Paulo, processo que culminou, ainda em 1973, nos desaparecimentos de Honestino Guimarães, Paulo Stuart Wright e José Carlos Novaes da Mata Machado, além do assassinato de Gildo Macedo Lacerda. Reflete sobre o impacto traumático do desmantelamento da organização, assim como as complexas dificuldades no processo de elaboração de suas vivências de sequestro e tortura.
Conta que, em liberdade, tornou-se sanitarista e pediatra homeopata. Relata como se deu a sua vinculação com o grupo Tortura Nunca Mais, em 1981, a partir de um convite feito por Helena dos Santos Pereira, mãe de Miguel Pereira dos Santos, desaparecido no Araguaia. Conta que, inicialmente, dedicava-se mais à sua militância pela saúde pública, mas que em 2000 tornou-se presidente do Grupo Tortura Nunca Mais. Conta como se deu a formação do Coletivo Contra Tortura. Conta sobre investigação que realizaram sobre legistas que atuaram no DOI-Codi/SP. Conta sobre o que aconteceu com sua filha durante a seu sequestro e reflete sobre os traumas dos filhos de vítimas da repressão.
Entrevistadores
Julia Gumieri e Vanessa Miyashiro
Duração (minutos)
135
Operador de câmera
Nael Souza
Local da entrevista
Estúdio de História Oral do Memorial da Resistência
Como citar
VILELA, Elzira. Entrevista sobre militância, resistência e repressão durante a ditadura civil-militar. Memorial da Resistência de São Paulo. Entrevista concedida a Vanessa Miyashiro e Julia Gumieri em 16/05/2024.
Assuntos: Eventos
Revolução Cultural Chinesa | Revolução Cubana | Assassinato de Luiz Hirata por agentes da repressão | Desaparecimento de Paulo Stuart Wright por agentes da repressão | Desaparecimento de José Carlos Novaes da Mata Machado por agentes da repressão | Assassinato de Gildo Macedo Lacerda por agentes da repressão | Assassinato de Honestino Monteiro Guimarães por agentes da repressão | Assassinato de Vladmir Herzog por agentes da repressão | Guerra do Vietnã
Assuntos: Lugares
Teatro Oficina | Estação da Luz | DOI-Codi/SP | Hospital das Clínicas